Em conferência no Marché du Film entidades demonstram união do setor para levar audiovisual brasileiro para o mundo
No dia 18 de maio, quinta-feira, o destaque da programação do "Cinema do Brasil" no Festival de Cannes foi a Conferência "As Novas Perspectivas e Oportunidades para Filmar no Brasil", onde diversos parceiros institucionais de apoio ao audiovisual brasileiro conversaram sobre os esforços coletivos para a retomada do suporte ao setor. Além da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), integraram o debate o Ministério da Cultura, por meio da Secretaria do Audiovisual, a Secretaria de Cultura e Economia Criativa estadual de São Paulo, a Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro e a Spcine.
Durante a sua fala, a Diretora de Negócios da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), Ana Paula Repezza, destacou a importância do setor audiovisual para a ApexBrasil, dando ênfase para o momento de reconstrução conjunta. “Nos últimos 4 anos, todo o setor de economia criativa sofreu um desmonte considerável. No caso da Agência, projetos que como o ‘Cinema do Brasil’, com o qual trabalhávamos desde 2006, foi descontinuado. A nossa indústria criativa merece um apoio muito maior, mais estruturado e coordenado entre todos os entes da federação”, defendeu a diretora.
Repezza também ressaltou o potencial do cinema no âmbito internacional, tendo em vista a alta estima que a cultura brasileira goza no mundo. “Eu acho que o que faz a cultura Brasileira tão atrativa e competitiva internacionalmente é esse grande caldo criativo que a gente representa, com influências de várias origens e de várias regiões”, avaliou ela. O estímulo ao segmento cultural, ela adiciona, reflete-se não apenas na economia, mas também no fortalecimento da imagem do país no exterior, o que é conhecido como soft power.
A retomada da parceria da ApexBrasil com o setor audiovisual começou com o apoio ao Cinema do Brasil para a participação no Festival de Cannes, mas Repezza sinalizou que o objetivo é desenvolver um projeto de longo prazo, que considere as novas necessidades da indústria. “Entendemos o desenho do novo projeto tem que ter um olhar de gênero, de raça e regional. Apreciamos que 40% da indústria esteja no eixo Rio-São Paulo, mas produtores de outras regiões, Norte e Nordeste, com certeza têm bastante a contribuir para a promoção do audiovisual. Queremos voltar com um projeto de Cinema do Brasil ainda mais representativo, diverso e competitivo”, afirmou a diretora.
A importância das co-produções
Representando o Ministério da Cultura, a secretária do Audiovisual, Joelma Oliveira Gonzaga, destacou as prioridades do órgão para a internacionalização do setor: atualização de acordos e protocolos de cooperação com outros países e a ampliação de parcerias em diferentes áreas. Gonzaga ressaltou a projeção que esse tipo de instrumento pode dar ao audiovisual nacional.
Um dos clássicos do cinema mundial, por exemplo, se deu a partir da cooperação do Brasil com outros países. “Uma das primeiras presenças brasileiras aqui em Cannes, em 1959, o ‘Orfeu Negro’, adaptação da obra de Vinícius de Moraes que leva o mito grego para as favelas cariocas, se deu através de um acordo de coprodução entre Brasil, França e Itália”, destacou. Quase 60 anos depois, o filme Bacurau, que ganhou o prêmio do júri de melhor produção também em Cannes, foi igualmente uma coprodução entre Brasil e França.
Esses acordos internacionais têm potencial de atrair parceiros estrangeiros para o país, já que as obras cinematográficas ou audiovisuais certificadas como co-produções podem acessar todos os benefícios e isenções governamentais concedidos às obras brasileiras. Atualmente, o Brasil possui 17 acordos de co-produção, sendo que um deles é multilateral.
No total, são 24 países com os quais os profissionais brasileiros podem produzir diretamente. “É um número ainda tímido, que a gente quer pelo menos triplicar, e, para isso, vem trabalhando constantemente o MRE, a Ancine e a ApexBrasil, em uma ofensiva de ampliação dessas ferramentas”, explicou a secretária.
O apoio nos estados
O incentivo nos estados também é fator fundamental para garantir a competitividade do setor. De acordo com Viviane Ferreira, diretora-presidente da Spcine, a entidade tem realizado um trabalho constante de reaproximação da indústria paulista com os grandes players globais, garantindo a presença dos produtores nos maiores eventos do mercado audiovisual.
Ferreira destacou, ainda, a importância do trabalho ativo com a mídia internacional, reiterando as narrativas positivas sobre o Brasil. Apesar de representar os profissionais de São Paulo, ela considera que o desenvolvimento do setor no estado deve ser realizado com uma perspectiva mais ampla, já que tem a capacidade de influenciar e dialogar com todo o país, e, assim, contribuir com o mercado nacional.
A secretária da Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, Marília Marton, corroborou com essa perspectiva, destacando os desafios para um setor cujo tempo de maturação de projetos é longo. “Desse primeiro momento em que se imagina um texto, um roteiro, até o dia que ele fica pronto é um longo percurso, anos. E estamos falando de um investimento que acontece antes de o filme estar na bilheteria. Então como isso se financia? É nessa hora que se vê a importância do governo, que precisa ter claro que esse retorno acontece na geração de renda e de emprego, no ciclo na moeda circulante”, defendeu a secretária.
Representando o Rio de Janeiro, o secretário Municipal de Cultura Marcelo Calero, ressaltou a importância na descentralização dos recursos de financiamento para apoiar os profissionais estreantes e periféricos, sem descuidar da cena consolidada. Ele lembrou a particularidade da capital carioca, que concentra grandes conglomerados de comunicação, que acaba moldando as políticas públicas da cidade.
A Rio Filme e a Spcine aproveitaram a oportunidade do festival para apresentar seus editais de cash rebate. A RioFilme anunciou o Edital de Atrações de Filmagens para o Rio de Janeiro 2023, cujo percentual de devolução é de até 35% do valor investido na cidade para produções que filmarem no Rio de Janeiro. A Spcine apresentou seu edital de cash rabate para produções internacionais, maior programa da modalidade no Brasil, com R$ 40milhões de reais e com o maior teto por projeto da região, com R$16 milhões.